quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO – GRÉCIA ANTIGA


FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO – GRÉCIA ANTIGA

“A Filosofia da Educação não é a pedagogia. Também não é a psicologia da criança. É um ramo da Filosofia. Ora a filosofia não visa um saber-fazer, nem mesmo um saber, mas antes de mais o pôr em questão de tudo o que acreditamos poder e saber”.

A EDUCAÇÃO NA GRÉCIA ANTIGA

Entre os povos da antiguidade, em matéria de educação, os gregos são os que mais se sobre saem, e na Grécia Antiga que surgem as primeiras teorias educacionais. A compreensão de cultura e do lugar ocupado pelo individuo na sociedade reflete-se no ensino e nas próprias teorias.
A educação participa na vida e no crescimento da sociedade, tanto no seu destino exterior como na sua estruturação interna e desenvolvimento espiritual; e, uma vez que o desenvolvimento social depende da consciência dos valores que regem a vida humana, a história da educação está essencialmente condicionada pelos valores válidos para cada sociedade.
(JAEGER, 1994, p. 05).

A educação grega estava centrada na formação integral – corpo e espírito – a ênfase da educação se demandava mais, ora para o preparo militar ou esportivo, ora para o debate intelectual conforme a época e o lugar. Quando não existia a escrita, a educação era dada pelas famílias seguindo a tradição religiosa, os jovens da elite eram deixados a cargo dos preceptores. Com o surgimento das Polis nascem as primeiras escolas, mas mesmo com o aparecimento da oferta escolar, a educação permanecia elitizada atendia principalmente os filhos da antiga nobreza e os pertencentes a famílias de comerciantes ricos. Na sociedade escravagista grega existia o “Ócio digno”, que significava dispor de tempo livre, privilegio de quem não precisava cuidar do sustento, mas não se deve confundir o “Ócio digno” com o “fazer nada”, ele alude a ocupar-se com as funções de governar, pensar, guerrear. Não é por acaso que a palavra grega para escola (scholé) significava inicialmente o lugar do ócio.
(ARANHA, 2006, p. 62)

A educação física que era predominantemente militar começa a ser orientada para os esportes, o hipismo era um esporte elegante e restrito aos mais abastados, pois era de manutenção cara, com o passar do tempo o atletismo ampliou a participação do público que frequentava os ginásios, nessas escolas voltadas mais para os esportes o ensino das letras e dos cálculos levou mais tempo para se disseminar. O aspecto comum às Polis gregas era o de que a transmissão de cultura não era prerrogativa somente das escolas ou das famílias, as Polis continuavam educando nas inúmeras atividades coletivas, reuniões políticas, administrativas e jurídicas, nos jogos, nas artes e na arquitetura, nas representações dramáticas. Na Grécia Antiga o teatro era a escola de todos os cidadãos, a educação grega tinha duas finalidades ou objetivos: desenvolver o cidadão fiel ao estado e formar o homem com plena harmonia e domínio de si, prepará-lo para a cidadania e os deveres cívicos.

A EDUCAÇÃO ESPARTANA

Com caráter na essência militar, a educação espartana incluía o aprendizado do oficio das armas, e se limitava quase exclusivamente ao treinamento militar. Até os doze anos as crianças espartanas recebiam uma educação mais lúdica por assim dizer, aprendiam música e poesia, depois a educação física se transformava em um treino militar, tinham que suportar frio, fome, dormir sem conforto algum, vestir-se de forma simples, a educação moral dava ênfase a obediência, a aceitação dos castigos físicos e o respeito aos mais velhos, privilegiava a vida comunitária. O ideal de cavalheiro dos tempos homéricos foi substituído pelo devotamento ao estado, o ensino da poesia e da música tornou-se quase nulo. Os espartanos não apreciavam os debates e nem os discursos longos, vem daí a expressão lacônica, maneira breve e concisa de falar ou escrever, pois a região onde viviam era a Lacônia. Entre as cidades da Grécia Antiga, as da Lacônia foram as que mais ofereceram atenção as mulheres, elas participavam das atividades físicas, corridas, lançamento de disco, exercícios de salto e dança, eram algumas das atividades por elas praticadas, nos jogos e festividades os espartanos gostavam de mostrar a força e a beleza dos seus corpos bem treinados.

A EDUCAÇÃO ATENIENSE

Segundo Tucídides, historiador grego (séc. V a.C), Atenas foi à escola de toda a Grécia Antiga, a concepção de estado fez surgir à figura do cidadão da Polis, com a ascensão da classe dos comerciantes surge outro exercício de poder e também um novo tipo de educação que não mais privilegia o pequeno grupo da aristocracia. Pouco a pouco os cidadãos livres conquistam esse direito, e a educação aristocrática se estende e se torna a educação típica de toda criança grega, nesse contexto surge à escrita, não que não existisse escrita, ela era usada apenas na administração estatal, mas conheceu momentos de quase total desaparecimento.

Na época de Sólon (séc. VI a.C), era praticada a escrita bustrofédica para as leis, que só foi abandonada no inicio de 570 a.C, o novo uso da escrita alfabética difundiu-se rapidamente através da escola.
(MANACORDA, 2002, p. 49)

A escrita alfabética constitui uma forma democrática de educação na qual o saber é colocado à disposição de todos os cidadãos, Vernant afirma que a escrita se tornou o bem comum a todos, quase com os mesmos direitos da língua falada. Para ele, a escrita vem atender uma reivindicação que se faz presente desde o surgimento das cidades: a redação das leis, a esse respeito argumenta que:

Ao subscrevê-las, não se faz mais que assegurar-lhes permanência e fixidez, subtraem-se a autoridade dos Basileis, cuja função era dizer o direito, tornam-se bem comum, regra geral, suscetível de ser aplicada a todos da mesma maneira. (VERNANT, 2000, p. 43)

Dessa forma a educação tornou-se aberta a coletividade, o número de crianças aumentou muito então e necessário um local onde possam se dedicar ao estudo, daí e que surge a escola. Nesse local as crianças aprendiam: música, ginástica e o alfabeto, a disciplina era mantida com o uso do chicote, a violência física era normal nas relações entre alunos e mestres, de ambas as partes. Entre os mestres tinha: o citarista (mestre de música), o pedotriba (mestre de ginástica), o gramatista (mestre das letras e do alfabeto) e o pedagogo, um escravo que era encarregado de levar a bagagem do seu pupilo, acompanhá-lo, ensinar-lhe boas maneiras ajudá-lo a repetir as lições e decorar os poemas. A educação elementar completava-se em torno dos 13 anos, os mais pobres iam à busca de algum ofício, enquanto que os abastados eram encaminhados ao ginásio. Com o passar do tempo foi surgindo à discussão literária que abriu espaço para outros assuntos tais como: matemática, geometria e astronomia, com a criação de bibliotecas e salas de aula, o local ganhou ares de escola secundária. Dos 16 aos 18 anos a educação assume outra dimensão, surge a Efebia, instituição de ensino militar, com o fim do serviço militar em Atenas, a Efebia, se constitui a escola onde se ensina filosofia e literatura. E necessário compreender as mudanças na educação a partir das novas exigências da Polis, essa formação têm que ter finalidades cívicas, a preparação para a cidadania, é essa consciência faz sentir a necessidade de um novo tipo de educação, pois ginástica e música já não satisfazem as novas exigências sociais e políticas. Segundo o legislador Sólon:

As crianças devem, antes de tudo, aprender a nadar e a ler; em seguida, os pobres devem exercitar-se na agricultura ou em uma indústria qualquer, ao passo que os ricos devem se preocupar com a música e a equitação, e entregar-se à filosofia, à caça e a frequência aos ginásios.
(ARANHA, 2006, p. 66)

SOFISTAS

Os sofistas “Mestres na arte de Convencer” se compunham de grupos de mestres que viajavam de cidade em cidade realizando aparições públicas em discursos, defesas, e contendas verbais para atrair estudantes, de quem cobravam taxas para oferecer-lhes educação. O foco central de seus ensinamentos concentrava-se no logos e no discurso, com foco em estratégias de argumentação da oratória. Os mestres sofistas alegavam que podiam "melhorar" seus discípulos, ou, em outras palavras, que a "virtude" seria passível de ser ensinada.

Os sofistas vinculam-se à tradição educativa dos grandes poetas, desde Homero a Hesíodo, de Simónides a Píndaro. Estes últimos tornaram a poesia no palco de uma discussão intensa sobre educação, ao levarem o problema da possibilidade de ensinar a arete para os seus poemas. Os sofistas fizeram o resto, fornecendo livros dos grandes poetas aos seus discípulos e transportando para o seio da sua prosa artística os mais diversos géneros de poesia moral e interpretando, metodicamente, os grandes poetas, a cujos ensinamentos se vincularam afincadamente. No entanto, esta interpretação era fria, imediata e intemporal. Os sofistas não embebiam o poema em si, mas sim todo o conhecimento que este lhes pudesse transmitir. Para eles, Homero é uma útil enciclopédia, onde figuram regras fulcrais para a vida e todos os conhecimentos humanos, como a construção de carros, as estratégias... "A educação heroica da epopeia e da tragédia é interpretada de um ponto de vista francamente utilitário." Para os sofistas, o uso dos poemas justifica-se pelo facto de estes permitirem alcançar uma pronúncia e dicção correta das palavras.

PERÍODO ANTROPOLÓGICO OU SOCRÁTICO

O segundo período da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. Com efeito, nesse período realiza-se a sua grande e lógica sistematização, culminando em Aristóteles, através de Sócrates e Platão. De Platão e Aristóteles procedem a Academia e o Liceu, que sobreviverão também no período seguinte e além ainda, especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos, e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial - apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo.

A ACADEMIA

Em Atenas, pelo ano de 387, Platão fundava a sua célebre escola, que, dos jardins de Academo, onde surgiu, tomou o nome famoso de Academia. Adquiriu, perto de Colona, povoado da Ática, uma herdade, onde levantou um templo às Musas, que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio, até o tempo do imperador Justiniano (529 d.C.). É considerada a primeira escola de filosofia. Nela ingressou Aristóteles, com 17 anos de idade. Diógenes Laércio conta que havia duas mulheres na Academia, Lastenia Mantineense e Axiotea Fliasia, mas ambas tinham de ir vestidas como homens.
Discípulo de Sócrates, a escola de Platão primava pelo ensinamento dialético, onde o saber era encontrado mediante um processo endógeno, ou seja, pela busca individual, através dos constantes questionamentos. Sua escola rivalizava, assim, com sua contemporânea, de Isócrates - onde o conhecimento consistia meramente na assimilação daquele saber que já fora produzido.

O ENSINO PREPARATÓRIO PARA O EXERCÍCIO DA POLÍTICA
A SOFOCRACIA

A palavra grega Sofocracia faz referência ao sistema político idealizado por Platão - podemos, com efeito, traduzi-la como "Governo do Sábio".

A base estrutural deste sistema é a organização social através de funções, que seriam definidas no decorrer da vida educativa: o jovem seria educado (Paidéia) e, sendo executados cortes nas salas, as funções seriam definidas. Dessa forma podemos citar alguns cortes:

·         “Almas de Bronze”: Aos vinte anos seria executado o primeiro corte: aqueles que não tiverem aflorado uma sensibilidade aguçada trabalhariam na agricultura, artesanato e comércio.
·         “Almas de Prata”: Dez anos depois identificaríamos a virtude da coragem, selecionando guerreiros para os exércitos.
·         “Almas de Ouro”: Os que passassem nestes cortes (crivos) estudariam "a arte de Pensar" (Filosofia), que elevaria o pensamento até o puro raciocínio; aos 50 anos eles estariam prontos para legislar a sociedade.

O LICEU

O Liceu foi uma escola fundada por Aristóteles em 335 a.C.. A sua designação original era lyceum, provavelmente derivado de Apolo Lykeios.

Todas as manhãs, Aristóteles passeava com os seus alunos ao longo do peripatos, e com eles discutia as questões filosóficas mais profundas. À tarde, expunha assuntos de menor dificuldade para uma audiência mais vasta. Os cursos da manhã, ditos esotéricos ou acroamáticos, destinavam-se a um grupo menor e mais restrito de discípulos, mais adiantados, e incidiam sobre temas mais abstratos - lógica, física e metafísica - que requeriam um estudo mais intensivo. À tarde, decorriam os cursos exotéricos ou populares, destinados ao público em geral sendo eram expostos temas de maior acessibilidade, como a retórica, a política ou a literatura.

O Liceu compreendia uma biblioteca, laboratórios, salas de conferências e talvez algumas residências. A sua vasta biblioteca era a mais completa biblioteca particular, depois da de Eurípedes. O grande número de obras que a compunham terá levado à criação de princípios de classificação bibliotecária o que, por si só, constitui um valioso contributo para a cultura.

Aristóteles era pródigo na compra de manuscritos. Parece ter sido o primeiro a reconhecer a importância de organizar uma biblioteca como apoio a uma escola. Como beneficiava do apoio financeiro de Alexandre Magno, tal permitiram-lhe adquirir importantes coleções, em particular de botânica e de zoologia, alguns mapas e uma quantidade de objetos utilizados na ilustração das suas lições, principalmente de História Natural.

A intenção de Aristóteles era agrupar os sábios e os alunos em volta de uma biblioteca e de importantes coleções cientificas, com o intuito de assim contribuir para o progresso da ciência. A sua biblioteca serviu de modelo para a mais rica e a mais célebre biblioteca da Antiguidade, a Biblioteca de Alexandria.

O Liceu atingiu uma posição invejável entre as instituições atenienses.  A sua fama atraia um grande número de alunos que chegou a rondar os dois mil. Com a chegada de muitos alunos ao Liceu, foi necessário estabelecer normas, para a manutenção da ordem. Parece que os próprios estudantes fixavam as regras e elegiam, de dez em dez dias, um colega para dirigir a escola. Uma vez por mês, realizava-se um simpósio com regras estruturadas pelo próprio Aristóteles.

Contudo, não havia uma rígida imposição da disciplina, até pelo contrário: sabe-se que no Liceu tinham lugar refeições em comum com o mestre, e que os discípulos aprendiam enquanto o acompanhavam deambulando pelos caminhos entre as árvores do Lyceum.

ARANHA, Maria Lúcia. História da Educação e da Pedagogia: Geral Brasil. São Paulo: Moderna, 2006.
JAEGER, Werner. Paidéia- A formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
MANACORDA, M, A. História da Educação: Da Antiguidade aos nossos dias. São Paulo: Cortez, 2002.
MARROU, H, I. História da Educação na Antiguidade. São Paulo: E.P.U./ MEC, 1975.
VERNANT, J, P. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Ed Bertrand Brasil, 2000.


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